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Carreiras cortadas
Enviado por Adir de Souza <sintespar@yahoo.com.br> em 07/07/2009, 12:02
22/01/06 Cássia Almeida
Cinqüenta anos é a idade média em que mais de 200 mil trabalhadores brasileiros ficam inválidos no Brasil. De acordo com estudo inédito da professora e médica do trabalho da Universidade de Brasília (UnB), Anadergh Barbosa-Branco, com base nos números da Previdência Social, foram 228.058 casos em 2004, número 23% superior às 185.298 aposentadorias de 2003. Doenças cardíacas, as osteomusculares (problemas de coluna, de inflamação nos tendões e outros), as mentais (esquizofrenia, depressão) e os acidentes de trabalho são as principais causas encontradas no estudo.
— Mesmo que não exista o reconhecimento da relação com o trabalho na esmagadora maioria dos casos, os trabalhadores desenvolvem doenças cardíacas, por exemplo, bem mais cedo. O trabalho tem um papel importante. O calor aumenta a pressão arterial, assim como o estresse — explica Anadergh.
Mas a preocupação principal, segundo a médica, é com as doenças osteomusculares e os acidentes. Nesses casos, a aposentadoria acontece mais cedo. Entre os homens, o abandono precoce do trabalho por problemas de coluna e outros similares acontece aos 47 anos, enquanto nos casos de lesões e envenenamento, a média cai para 45 anos.
— Além do dano para o trabalhador, há o custo. Ele pára de contribuir 15 anos antes do previsto.
Gasto anual passa de R$ 1,7 bilhão
Pelas contas da professora da UnB, o país gastou cerca de R$ 1,73 bilhão em 2004 para cobrir as aposentadorias por invalidez.
— Muitas doenças que incapacitam o trabalhador não interferem no ciclo de vida. Além disso, com os casais optando por ter filhos mais tarde, a pensão continua sendo paga aos herdeiros até os 21 anos. É uma bola de neve do ponto de vista econômico — alerta.
A coordenadora de Benefícios para Incapacidade do INSS, Teresa Cristina Santos Maltez, explica que essa alta de 23% de um ano para o outro tem dois motivos principais. O primeiro é uma política adotada pelo instituto de aposentar os trabalhadores que já estão há muito tempo em auxílio-doença:
— Temos trabalhado nesse sentido. Depois de dois anos afastados do trabalho, estamos encaminhando para aposentadoria por invalidez, que pode ser revista a cada dois anos. Não fazia sentido manter o trabalhador fazendo perícias repetidamente.
O segundo fator está ligado à falta de tratamento adequado de doenças crônicas, como as cardíacas.
— Muitas pessoas com doenças crônicas não têm acesso ao tratamento adequado no tempo certo. Isso acaba agravando o estado clínico e levando à aposentadoria precoce — diz Teresa.
Norma Souto, médica do trabalho da Previdência Social, afirma que as doenças que aparecem como as mais comuns são também as mais freqüentes na população em geral e que incapacitam para o trabalho:
— A hipertensão arterial controlada não afasta do trabalho, mas a falta de tratamento leva a doenças cardíacas, renais, vasculares e aos derrames.
Para a médica, o que chama a atenção é que as doenças são possíveis de se prevenir ou controlar:
— Um bom sistema de saúde pública e educação para saúde poderiam amenizar a situação.
Cegueira entre as maiores causas
A cegueira incapacitou 5.585 trabalhadores em 2003. Situação vivida desde 1999 pelo petroleiro Silvio Carvalho Drumond, hoje com 52 anos. Um acidente na Refinaria de Duque de Caxias (Reduc) levou a visão e as pontas dos dedos do operador de transferência e estocagem no dia 27 de julho de 1999. O acidente aconteceu no Parque de GLP. Houve vazamento de gás e Drumond ligou o carro provocando a explosão:
— Não percebi o vazamento. A gente acaba se acostumando com o cheiro de gás. Havia um sensor de gás que não estava funcionando. Quando saí do carro, estava cercado por uma cortina de fogo. A única saída foi passar por ela. Queimei 55% do corpo. Passei três meses e 16 dias no hospital e já fiz cinco cirurgias. Até hoje, vivo acompanhado o dia inteiro por uma enfermeira — conta Drumond.
Marcos do Amaral, diretor do Sindicato dos Petroleiros de Duque de Caxias, afirma que o acidente de Drumond deixou traumas na equipe.
— As pessoas ficam abaladas ao ver o colega assim. Temem voltar ao local. Deixa seqüelas graves.
Giampaolo di Donato, gerente-geral interino da Reduc, diz que depois de 99 não houve outro acidente dessa gravidade na Reduc.
— Em 99, houve 17 acidentes com afastamento. No ano passado, apenas dois. Investimos em treinamento e em equipamentos mais modernos que surgiram nesse período de detecção de vazamento, sensores de gás e mais automatização. Os procedimentos são checados e rechecados.
LER e acidentes são os casos mais comuns provocados pelo trabalho
Cássia Almeida
A bancária Nilza Braga Batista, aos 49 anos, não consegue mais trabalhar. Sofre com inflamações nos tendões nos dois braços, um deles já operado para desobstruir o túnel do carpo. Não tem mais força nos braços, o que a impede, inclusive, de segurar copos e pratos de vidro:
— Cansei de quebrar copos. Agora uso tudo de plástico.
Solteira, vive com a mãe de 83 anos e sofre com as dores constantes, a dormência e a dependência:
— Eu deveria cuidar da minha mãe, mas é ela que cuida de mim — lamenta.
Nilza é um dos milhares de trabalhadores que ficaram inválidos por lesões de esforço repetitivo (LER). Somente duas delas, sinovite e tenossinovite (inflamação nos tendões), respondem por 10,2% dos casos de aposentadorias relacionadas ao trabalho (aquelas que o INSS reconhece como doenças ocupacionais).
Aos 23 anos, Nilza começou a carreira no banco como digitadora, passou para escriturária, depois para atendente de caixa automático e, por último, trabalhava na microfilmagem:
— Sentia dores, ia ao fisioterapeuta, mas evitava me afastar para não perder o emprego. Mesmo assim, tive que me afastar em 1989 para operar o túnel do carpo.
CUT culpa ritmo acelerado no trabalho pelas doenças
Rita de Cássia Evaristo, presidente do Instituto Nacional de Saúde, Trabalho e Meio Ambiente da CUT, afirma que essas doenças vêm aumentando pela forma de organização do trabalho:
— Agora estamos vivendo a mutilação invisível e muito cedo. O ritmo do trabalho é mais acelerado, ditado por máquinas. Queremos mais participação dentro das empresas para poder interferir.
Segundo Rita, outra medida é pressionar o Sistema Único de Saúde (SUS) para que consiga identificar melhor as doenças ocupacionais, que têm uma subnotificação crônica.
— Temos que dar mais visibilidade para as doenças ocupacionais. Só assim conseguiremos mudar a organização no local de trabalho.
Segundo Teresa Maltez, coordenadora do INSS, essas lesões vêm crescendo e já ultrapassaram os acidentes. Para tentar conter o avanço dessa enfermidade, o Ministério do Trabalho diz que vem mudando normas de segurança e intensificando a fiscalização:
— Queremos dar mais instrumentos para a fiscalização poder interferir no ambiente de trabalho — diz Rinaldo Marinho Costa Lima, diretor do Departamento de Segurança e Saúde do ministério.
Dagoberto Lima Godoy, presidente do Conselho de Relações do Trabalho da Confederação Nacional da Indústria (CNI), diz que é preciso fazer um esforço para redução dos acidentes e doenças, inclusive por razões econômicas:
— Há um investimento no capital humano e a aposentadoria precoce encurta o retorno desse recurso voltado para o trabalhador.
Segundo Godoy, a CNI busca, por meio do Sesi, dar atenção à saúde do trabalhador com programas de prevenção:
— Temos clínicas de reabilitação para trazer de volta esse trabalhador.
Prevenção individual e nas empresas
ATIVIDADE FÍSICA É unânime entre os especialistas a opinião de que a atividade física diminui o estresse. Assim, permite que doenças como as osteomusculares, as cardíacas e as depressões não se desenvolvam facilmente. Caminhadas, natação, hidroginástica são algumas das atividades indicadas para o trabalhador e não dependem de mudanças na organização do trabalho. O sedentarismo é apontado como um das principais causas dos problemas cardíacos:
— Principalmente entre as mulheres que entraram no mercado e acabaram adquirindo doenças mais comuns nos homens — diz a professora da UnB Anadergh Barbosa-Branco.
REEDUCAÇÃO: Na musculação, o trabalhador deve pedir ao professor de educação física a elaboração de um programa para fortalecer as partes do corpo mais exigidas durante o trabalho, como braços e mãos. O alongamento e a Reeducação Postural Global (RPG) são outros exercícios aconselháveis para as pessoas que ficam muitas horas em pé ou sentadas.
PARADAS: Se a organização do trabalho permitir, os especialistas aconselham que, a cada hora, o trabalhador dê uma parada e faça um alongamento rápido.
EQUIPAMENTOS: Mesmo que a empresa não forneça os apoios para antebraço no teclado, o equipamento é barato. O filtro para o monitor também é útil. São dois equipamentos baratos que ajudam na prevenção.
GINÁSTICA LABORAL: Se a empresa oferecer ginástica laboral, o trabalhador deve aderir. É mais uma forma de prevenção, inclusive as terapias alternativas, como o shiatsu.
ALIMENTAÇÃO: Os médicos também aconselham a pessoa a adotar uma alimentação saudável e evitar bebidas e cigarros. São agravantes das situações de estresse que o trabalhador vive no dia-a-dia.
PROTEÇÃO: Os trabalhadores devem exigir que a empresa forneça os equipamentos de proteção individual nas atividades mais arriscadas. (Cássia Almeida)
Fonte: O Globo
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