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Amianto dribla proibições e prospera em mina goiana
Enviado por Adir de Souza <sintespar@yahoo.com.br> em 15/07/2009, 05:22
Amianto dribla proibições e prospera em mina goiana
Restrições não diminuem a demanda pelo mineral, considerado cancerígeno
Minaçu, onde fica a única mina do material na América Latina, luta para manter o uso da fibra proibida em vários países
ANNA CAROLINA CARDOSO ESTELITA HASS CARAZZAI ENVIADAS ESPECIAIS A MINAÇU (GO)
Em Minaçu (GO), os vizinhos da única mina de amianto da América Latina podem ouvir os caminhões da mineradora Sama, subsidiária do grupo Eternit, trabalhando 24 horas por dia. A exploração do mineral, usado principalmente em telhas e caixas d'água, domina a economia da cidade. Na contramão da discussão sobre o banimento do mineral, classificado como cancerígeno pela OMS (Organização Mundial da Saúde), a empresa opera em capacidade máxima e deve bater recorde de produção neste ano. A Sama, responsável por 70% da arrecadação municipal e maior doadora privada de campanhas políticas no Estado, segundo valores declarados ao TSE, coleciona simpatizantes na cidade, apesar de seu produto ser proibido em cerca de 50 países. Na Europa, todos os tipos de amianto estão banidos desde 2005, inclusive a variedade crisotila, explorada em Minaçu. O amianto beneficiado na cidade segue, principalmente, para o exterior: 59% da produção da mina, a terceira maior do mundo, é exportada para países em desenvolvimento, como a Índia. No Brasil, o Paraná é maior consumidor. Em Minaçu, a produção de 25 mil toneladas por mês -o suficiente para cerca de 3 milhões de caixas d'água- emprega diretamente 899 pessoas. Em 2008, gerou R$ 247 milhões de receita e R$ 71,5 milhões em impostos -cerca de R$ 30 milhões ficaram no município, segundo a prefeitura. A mina tem papel central no desenvolvimento da cidade, criada em torno da extração do amianto. Até 1986, a Sama foi a única geradora de luz para o município. A estrada que liga a cidade à BR-153, principal acesso a Brasília e Goiânia, também foi feita pela empresa. Goiás também é um grande beneficiário e defensor do mineral, terceiro principal produto de exportação do Estado. Na bancada goiana no Congresso, dos 21 deputados, apenas um se manifestou contra a fibra. Todos os senadores do Estado defendem o uso controlado do minério, regulamentado por uma lei federal de 1995. Dizendo-se seguros de que o uso da fibra não oferece riscos à saúde, os políticos de Goiás e a indústria têm se dedicado a convencer a opinião pública de que seu banimento teria grande impacto econômico negativo no país. Segundo um estudo da FGV (Fundação Getulio Vargas), divulgado em janeiro deste ano, a cadeia produtiva do amianto gerou 60 mil empregos e acrescentou R$ 1,1 bilhão ao PIB brasileiro em 2007 -o equivalente a 0,4% do total. Colaborou MARCELO SOARES.
ANNA CAROLINA CARDOSO e ESTELITA HASS CARAZZAI participaram da 47ª turma do programa de treinamento em jornalismo diário da Folha, que foi patrocinado pela Philip Morris Brasil, pela Odebrecht e pela Oi
Medo de que mina feche paralisa os investimentos
DAS ENVIADAS ESPECIAIS A MINAÇU
O temor dos minaçuenses de que a mina de amianto seja fechada já fez com que um empreendimento imobiliário de R$ 20 milhões na cidade fosse cancelado antes mesmo de começar. Quando surge uma polêmica em torno do amianto, corre o boato de que a mineração pode ser proibida, e os investimentos desaparecem. O empresário goiano Nildemar Franco Amaral Júnior, 40, pretendia construir um condomínio com 374 lotes na cidade. O projeto foi abortado quando uma sondagem com potenciais compradores revelou que poucos estavam dispostos a investir em imóveis. "Os próprios trabalhadores da empresa têm medo de perder o emprego." Desde o início do ano, quando rumores sobre o fechamento da mina voltaram a circular pela cidade e se somaram à crise global, os preços dos lotes à beira do lago Cana Brava, principal área de lazer da cidade, caíram pela metade. Inseguros, muitos moradores evitam qualquer tipo de investimento. Há 15 anos em Minaçu, os comerciantes Aurora Duarte, 43, e Maurissane Duarte, 52, chegaram quando a cidade vivia dias promissores. Ela e o marido não pensaram duas vezes na hora de construir a casa e a loja na avenida Maranhão, a principal da cidade. Hoje, não querem mais construir o andar de cima. Preferem apostar num ponto em Palmas (TO), onde o filho vai estudar. A exemplo de Aurora e Maurissane, toda Minaçu depende do dinheiro movimentado pela mina. Se a Sama fechar, Minaçu acabará, dizem os moradores. Foi o que aconteceu a Bom Jesus da Serra, na Bahia. A mina de amianto local foi explorada de 1940 até o descobrimento da jazida goiana, em 1962. Hoje, sem outra atividade, a economia da cidade está estagnada. Em Minaçu, praticamente todo o comércio local defende a exploração do amianto. Em abril, 83 ônibus, pagos pela prefeitura e pela Sama, saíram da cidade para protestar a favor do uso do amianto em Brasília. Um deles foi ocupado apenas por funcionários da loja de roupas Goianinha, do comerciante Luiz Marques, 47. Segundo os defensores do amianto, toda a polêmica a respeito do seu banimento é provocada por interesses comerciais de quem desenvolve e comercializa fibras alternativas. "Por trás disso, com certeza tem alguma outra firma, que faz caixa d'água de plástico", diz a manicure Keila Costa, 29. A crença de que não haveria outra forma de a cidade sobreviver é alimentada, também, pelo fracasso de outras atividades econômicas. O cultivo de alho, abacaxi, mandioca e banana já foi estimulado pela prefeitura, mas não houve resultados significativos. A pecuária é restrita a pequenos produtores. "Escoar a produção é o problema", afirma o secretário de Administração do município, Alberto de Oliveira. No extremo norte de Goiás, Minaçu está fora da rota das principais rodovias que cortam o Estado. O isolamento eleva o custo para escoar a produção. (ACC e EHC)
Não há números oficiais sobre doentes
DAS ENVIADAS ESPECIAIS A MINAÇU
Pelas ruas de Minaçu, a professora Lúcia Marques, 42, é conhecida como "a louca". Ela tenta, desde o ano passado, provar na Justiça que a morte do pai, ex-trabalhador da Sama, foi provocada pelo amianto e criar uma associação de apoio às vítimas do mineral. Casos como o de Lúcia são exceção na cidade, onde a maioria diz desconhecer quem tenha adoecido por causa do trabalho na mina. "Tudo o que se fala contra o amianto é mentira. Até hoje não se prova que houve sequer uma pessoa doente aqui. Isso é tudo fantasia", diz o prefeito Cícero Romão (PSDB). O risco à saúde dos trabalhadores -se inalado, o amianto pode provocar fibrose pulmonar e câncer - é o principal argumento de quem apoia a proibição do minério. A Sama afirma que depois de 1980 não houve nenhum caso de trabalhadores doentes na cidade. Nessa época, foram adotados equipamentos de segurança e instalados filtros nas usinas da mineradora, que acabaram com a "nuvem de amianto" que invadia as casas. Hoje, a empresa reitera que a manipulação do amianto é totalmente segura. Apesar das declarações da mineradora, não há dados oficiais sobre a saúde de quem trabalha com o amianto. Um grupo de 17 empresas do setor, entre elas a Sama, conseguiu uma liminar para não cumprir uma portaria que exigia que informações sobre os trabalhadores fossem enviadas ao Ministério da Saúde. O argumento é que a portaria inibe a atividade e "constitui privilégio à indústria de fibras alternativas", que não foi obrigada a fazer o mesmo.
Laudos divergentes
A Sama diz monitorar a saúde de cerca de 11 mil funcionários e ex-trabalhadores anualmente. Entre todos, ela reconhece aproximadamente cem doentes. O número é considerado subestimado pela Abrea (Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto) e por trabalhadores que discordam dos laudos da Sama. É o caso de Ilton Cascalho, 56, e sua mulher, Joana Cascalho, 50. Na década de 1970 eles trabalharam na Sama por 10 e 12 anos, respectivamente. Os dois têm nódulos no pulmão e questionam a avaliação da empresa, que não relaciona a alteração à exposição ao amianto, como um segundo médico diagnosticou. A Sama, por sua vez, contesta a aptidão do profissional para avaliar o caso. Para o sindicato dos mineradores, muitos ex-trabalhadores querem estar doentes para receber, por meio de acordo extrajudicial, o plano de saúde e a indenização que são pagos quando diagnosticadas doenças relacionadas ao amianto. O instrumento prevê indenizações entre R$ 11 mil e R$ 34 mil. Já existem 3.500 desses acordos, assinados antes do diagnóstico. A Sama não divulga quantas dessas pessoas estão de fato doentes. (ACC e EHC)
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