Um suicídio no trabalho é uma mensagem brutal"

Enviado por Adir de Souza <sintespar@yahoo.om.br> em 04/02/2010, 02:51

Um suicídio no trabalho é uma mensagem brutal"

Christophe Dejours (foto de Enric Vives-Rubio)

Por Ana Gerschenfeld

Nos últimos anos, tr&#234;s ferramentas de gest&#227;o estiveram na base de uma transformaç&#227;o radical da maneira como trabalhamos: a avaliaç&#227;o individual do desempenho, a exig&#234;ncia de “qualidade total” e o outsourcing. O fenômeno gerou doenças mentais ligadas ao trabalho. Christophe Dejours, especialista na matéria, desmonta a espiral de solid&#227;o e de desespero que pode levar ao suicídio.



Psiquiatra, psicanalista e professor no Conservatoire National des Arts et Métiers, em Paris, Christophe Dejours dirige ali o Laboratório de Psicologia do Trabalho e da Aç&#227;o – uma das raras equipas no mundo que estuda a relaç&#227;o entre trabalho e doença mental. Esteve há dias em Lisboa, onde, de gravata amarela, cabeleira “&#224; Beethoven” e olhos risonhos a espreitar por detrás de pequenos óculos de massa redondos, falou do sofrimento no trabalho. N&#227;o apenas do sofrimento enquanto gerador de patologias mentais ou de esgotamentos, mas sobretudo enquanto base para a realizaç&#227;o pessoal. N&#227;o há “trabalho vivo” sem sofrimento, sem afeto, sem envolvimento pessoal, explicou. É o sofrimento que mobiliza a intelig&#234;ncia e guia a intuiç&#227;o no trabalho, que permite chegar &#224; soluç&#227;o que se procura.



Claro que no outro extremo da escala, nas condiç&#245;es de injustiça ou de assédio que hoje em dia se vivem por vezes nas empresas, há um tipo de sofrimento no trabalho que conduz ao isolamento, ao desespero, &#224; depress&#227;o. No seu último livro, publicado há uns meses em França e intitulado Suicide et Travail: Que Faire? , Dejours aborda especificamente a quest&#227;o do suicídio no trabalho, que se tornou muito mediática com a vaga de suicídios que se verificou recentemente na France Télécom.



Depois da confer&#234;ncia, o médico e cientista falou com o P2 sobre as causas laborais desses gestos extremos, trágicos e irreversíveis. Mais geralmente, explicou-nos como a destruiç&#227;o pelos gestores dos elos sociais no trabalho nos fragiliza a todos perante a doença mental.


O suicídio ligado ao trabalho é um fenômeno novo?

O que é muito novo é a emerg&#234;ncia de suicídios e de tentativas de suicídio no próprio local de trabalho. Apareceu em França há apenas 12, 13 anos. E n&#227;o só em França – as primeiras investigaç&#245;es foram feitas na Bélgica, nas linhas de montagem de automóveis alem&#227;es. É um fenômeno que atinge todos os países ocidentais. O fato de as pessoas irem suicidar-se no local de trabalho tem obviamente um significado. É uma mensagem extremamente brutal, a pior do que se possa imaginar – mas n&#227;o é uma chantagem, porque essas pessoas n&#227;o ganham nada com o seu suicídio. É dirigida &#224; comunidade de trabalho, aos colegas, ao chefe, aos subalternos, &#224; empresa. Toda a quest&#227;o reside em decodificar essa mensagem.



Afeta certas categorias de trabalhadores mais do que outras?

Na minha experi&#234;ncia, há suicídios em todas as categorias – nas linhas de montagem, entre os quadros superiores das telecomunicaç&#245;es, entre os bancários, nos trabalhadores dos serviços, nas atividades industriais, na agricultura.



No passado, n&#227;o havia suicídios ligados ao trabalho na indústria. Eram os agricultores que se suicidavam por causa do trabalho – os assalariados agrícolas e os pequenos proprietários cuja atividade tinha sido destruída pela concorr&#234;ncia das grandes exploraç&#245;es. Ainda há suicídios no mundo agrícola.



O que é que mudou nas empresas?

A organizaç&#227;o do trabalho. Para nós, clínicos, o que mudou foram principalmente tr&#234;s coisas: a introduç&#227;o de novos métodos de avaliaç&#227;o do trabalho, em particular a avaliaç&#227;o individual do desempenho; a introduç&#227;o de técnicas ligadas &#224; chamada “qualidade total”; e o outsourcing, que tornou o trabalho mais precário.



A avaliaç&#227;o individual é uma técnica extremamente poderosa que modificou totalmente o mundo do trabalho, porque pôs em concorr&#234;ncia os serviços, as empresas, as sucursais – e também os indivíduos. E se estiver associada quer a prémios ou promoç&#245;es, quer a ameaças em relaç&#227;o &#224; manutenç&#227;o do emprego, isso gera o medo. E como as pessoas est&#227;o agora a competir entre elas, o &#234;xito dos colegas constitui uma ameaça, altera profundamente as relaç&#245;es no trabalho: “O que quero é que os outros n&#227;o consigam fazer bem o seu trabalho.”



Muito rapidamente, as pessoas aprendem a sonegar informaç&#227;o, a fazer circular boatos e, aos poucos, todos os elos que existiam até aí – a atenç&#227;o aos outros, a consideraç&#227;o, a ajuda mútua – acabam por ser destruídos. As pessoas já n&#227;o se falam, já n&#227;o olham umas para as outras. E quando uma delas é vítima de uma injustiça, quando é escolhida como alvo de um assédio, ninguém se mexe…



Mas o assédio no trabalho é novo?

N&#227;o, mas a diferença é que, antes, as pessoas n&#227;o adoeciam. O que mudou n&#227;o foi o assédio, o que mudou é que as solidariedades desapareceram. Quando alguém era assediado, beneficiava do olhar dos outros, da ajuda dos outros, ou simplesmente do testemunho dos outros. Agora est&#227;o sós perante o assediador – é isso que é particularmente difícil de suportar. O mais difícil em tudo isto n&#227;o é o facto de ser assediado, mas o fato de viver uma traiç&#227;o – a traiç&#227;o dos outros. Descobrimos de repente que as pessoas com quem trabalhamos há anos s&#227;o cobardes, que se recusam a testemunhar, que nos evitam, que n&#227;o querem falar connosco. Aí é que se torna difícil sair do poço, sobretudo para os que gostam do seu trabalho, para os mais envolvidos profissionalmente. Muitas vezes, a empresa pediu-lhes sacrifícios importantes, em termos de sobrecarga de trabalho, de ritmo de trabalho, de objectivos a atingir. E até lhes pode ter pedido (o que é algo de relativamente novo) para fazerem coisas que v&#227;o contra a sua ética de trabalho, que moralmente desaprovam.

Qual é o perfil das pessoas que s&#227;o alvo de assédio?

S&#227;o justamente pessoas que acreditam no seu trabalho, que est&#227;o envolvidas e que, quando começam a ser censuradas de forma injusta, s&#227;o muito vulneráveis. Por outro lado, s&#227;o frequentemente pessoas muito honestas e algo ingénuas. Portanto, quando lhes pedem coisas que v&#227;o contra as regras da profiss&#227;o, contra a lei e os regulamentos, contra o código do trabalho, recusam-se a faz&#234;-las. Por exemplo, recusam-se a assinar um balanço contabilista manipulado. E em vez de ficarem caladas, dizem-no bem alto. Os colegas n&#227;o dizem nada, já perceberam há muito tempo como as coisas funcionam na empresa, já há muito que desviaram o olhar. Toda a gente é cúmplice. Mas o tipo empenhado, honesto e algo ingénuo continua a falar. N&#227;o devia ter insistido. E como falou &#224; frente de todos, torna-se um alvo. O chefe vai mostrar a todos qu&#227;o impensável é dizer abertamente coisas que n&#227;o devem aparecer nos relatórios de atividade.



Um único caso de assédio tem um efeito extremamente potente sobre toda a comunidade de uma empresa. Uma mulher está a ser assediada e vai ser destruída, uma situaç&#227;o de uma total injustiça; ninguém se mexe, mas todos ficam ainda com mais medo do que antes. O medo instala-se. Com um único assédio, consegue-se dominar o coletivo de trabalho todo. Por isso, é importante, ao contrário do que se diz, que o assédio seja bem visível para todos. Há técnicas que s&#227;o ensinadas, que fazem parte da formaç&#227;o em matéria de assédio, com psicólogos a fazer essa formaç&#227;o.



Uma formaç&#227;o para o assédio?

Exatamente. Há estágios para aprenderem essas técnicas. Posso contar, por exemplo, o caso de um estágio de formaç&#227;o em França em que, no início, cada um dos 15 participantes, todos eles quadros superiores, recebeu um gatinho. O estágio durou uma semana e, durante essa semana, cada participante tinha de tomar conta do seu gatinho. Como é óbvio, as pessoas afeiçoaram-se ao seu gato, cada um falava do seu gato durante as reuni&#245;es, etc.. E, no fim do estágio, o diretor do estágio deu a todos a ordem de… matar o seu gato.



Está a descrever um cenário totalmente nazi...

Só que aqui ninguém estava a apontar uma espingarda &#224; cabeça de ninguém para o obrigar a matar o gato. Seja como for, um dos participantes, uma mulher, adoeceu. Teve uma descompensaç&#227;o aguda e eu tive de tratá-la – foi assim que soube do caso. Mas os outros 14 mataram os seus gatos. O estágio era para aprender a ser impiedoso, uma aprendizagem do assédio.



Penso que há bastantes empresas que recorrem a este tipo de formaç&#227;o – muitas empresas cujos quadros, responsáveis de recursos humanos, etc., s&#227;o ensinados a comportar-se dessa maneira.



Voltando ao perfil do assediado, é perigoso acreditar realmente no seu trabalho?

É. O que vemos é que, hoje em dia, envolver-se demasiado no seu trabalho representa um verdadeiro perigo. Mas, ao mesmo tempo, n&#227;o pode haver intelig&#234;ncia no trabalho sem envolvimento pessoal – sem um envolvimento total.



Isso gera, aliás, um dilema terrível, nomeadamente em relaç&#227;o aos nossos filhos. As pessoas suicidam-se no trabalho, portanto n&#227;o podemos dizer aos nossos filhos, como os nossos pais nos disseram a nós, que é graças ao trabalho que nos podemos emancipar e realizar-nos pessoalmente. Hoje, vemo-nos obrigados a dizer aos nossos filhos que é preciso trabalhar, mas n&#227;o muito. É uma mensagem totalmente contraditória.



E os sindicatos?

Penso que os sindicatos foram em parte destruídos pela evoluç&#227;o da organizaç&#227;o do trabalho. N&#227;o se opuseram &#224; introduç&#227;o dos novos métodos de avaliaç&#227;o. Mesmo os trabalhadores sindicalizados viram-se presos numa dinâmica em que aceitaram compromissos com a direç&#227;o. Em França, a sindicalizaç&#227;o diminuiu imenso – as pessoas já n&#227;o acreditam nos sindicatos porque conhecem as suas práticas desleais.



Como distinguir um suicídio ligado ao trabalho de um suicídio devido a outras causas?

É uma pergunta &#224; qual nem sempre é possível responder. Hoje em dia, n&#227;o somos capazes de esclarecer todos os suicídios no trabalho. Mas há casos em que é indiscutível que o que está em causa é o trabalho. Quando as pessoas se matam no local de trabalho, n&#227;o há dúvida de que o trabalho está em causa. Quando o suicídio acontece fora do local de trabalho e a pessoa deixa cartas, um diário, onde explica por que se suicida, também n&#227;o há dúvidas – s&#227;o documentos aterradores. Mas quando as pessoas se suicidam fora do local do trabalho e n&#227;o deixam uma nota, é muito complicado fazer a distinç&#227;o. Porém, &#224;s vezes é possível. Um caso recente – e uma das minhas vitórias pessoais – foi julgado antes do Natal, em Paris. Foi um processo bastante longo contra a Renault por causa do suicídio de vários engenheiros e cientistas altamente qualificados que trabalhavam na concepç&#227;o dos veículos, num centro de pesquisas da empresa em Guyancourt, perto de Paris.



Quando é que isso aconteceu?

Em 2006-2007. Houve cinco suicídios consecutivos; quatro atiraram-se do topo de umas escadas interiores, do quinto andar, &#224; frente dos colegas, num local com muita passagem &#224; hora do almoço. Mas um deles – aliás de origem portuguesa – n&#227;o se suicidou no local do trabalho. Era muitíssimo utilizado pela Renault nas discuss&#245;es e negociaç&#245;es sobre novos modelos e produç&#227;o de peças no Brasil. Foi utilizado, explorado de forma aterradora. Pediam-lhe constantemente para ir ao Brasil e o homem estava exausto por causa da diferença horária. Era uma pessoa totalmente dedicada, tinha mesmo feito coisas sem ninguém lhe pedir, como traduzir documentos técnicos para portugu&#234;s, para tentar ganhar o mercado brasileiro para a empresa. A dada altura, teve uma depress&#227;o bastante grave e acabou por se suicidar.



A viúva processou a Renault, que em Dezembro acabou por ser condenada por “falta imperdoável do empregador” [conceito do direito da segurança social em França], por n&#227;o ter tomado as devidas precauç&#245;es.



Foi um acontecimento importante porque, pela primeira vez, uma grande multinacional foi condenada em virtude das suas práticas inadmissíveis. Os advogados do trabalho apoiaram-se muito nos resultados científicos do meu laboratório. O acórd&#227;o do tribunal tinha 25 páginas e as provas foram consideradas esmagadoras. Havia e-mails onde o engenheiro dizia que já n&#227;o aguentava mais – e que a empresa fez desaparecer limpando o disco rígido do seu computador. Mas ele tinha cópias dos documentos no seu computador de casa. A argumentaç&#227;o foi imparável.



Mesmo assim, as empresas continuam a dizer que os suicídios dos seus funcionários t&#234;m a ver com a vida privada e n&#227;o com o trabalho.

Toda a gente tem problemas pessoais. Portanto, quando alguém diz que uma pessoa se suicidou por raz&#245;es pessoais, n&#227;o está totalmente errado. Se procurarmos bem, vamos acabar por encontrar, na maioria dos casos, sinais precursores, sinais de fragilidade. Há quem já tenha estado doente, há quem tenha tido episódios depressivos no passado. É preciso fazer uma investigaç&#227;o muito aprofundada.



Mas se a empresa pretender provar que a crise depressiva de uma pessoa se deve a problemas pessoais, vai ter de explicar por que é que, durante 10, 15, 20 anos, essa pessoa, apesar das suas fragilidades, funcionou bem no trabalho e n&#227;o adoeceu.



Mas como é que o trabalho pode conduzir ao suicídio? Só acontece a pessoas com determinada vulnerabilidade?

Só muito recentemente é que percebi que uma pessoa podia ser levada ao suicídio sem que tivesse até ali apresentado qualquer sinal de vulnerabilidade psicopatológica. Fiquei extremamente surpreendido com um caso em especial, do qual n&#227;o posso falar muito aqui, porque ainda n&#227;o foi julgado, de uma mulher que se suicidou na sequ&#234;ncia de um assédio no trabalho.



A Polícia Judiciária [francesa] tinha interrogado os seus colegas de trabalho e, como a ordem vinha de um juiz, as pessoas falaram. Foram 40 depoimentos que descreviam a maneira como essa mulher tinha sido tratada pelo patr&#227;o (apenas uma contradiz as restantes 39). E o que emerge é que, devido ao assédio, ela caiu num estado psicopatológico muito parecido com um acesso de melancolia.



Ora, o que mais me espantou, quando procurei sinais precursores, é que n&#227;o encontrei absolutamente nada. E, pela primeira vez, comecei a pensar que, em certas situaç&#245;es, quando uma pessoa que n&#227;o é melancólica é escolhida como alvo de assédio, é possível fabricar, desencadear, uma verdadeira depress&#227;o em tudo igual &#224; melancolia. Quando essa pessoa se vai abaixo, tem uma depress&#227;o, autodesvaloriza-se, torna-se pessimista, pensa que n&#227;o vale nada, que merece realmente morrer.



Era uma mulher hiperbrilhante, muitíssimo apreciada, muito envolvida, imaginativa, produtiva. Tinha duas crianças óptimas e um marido excepcional. Falei com os seus amigos, o marido, a m&#227;e. N&#227;o encontrei nenhum sinal precursor, nem sequer na sua infância.



Aconteceu sem pré-aviso?

Houve um período crítico que terá durado um m&#234;s. As pessoas &#224; sua volta deram por isso. Viram que ela estava muito mal, o médico do trabalho foi avisado e obrigou-a a parar de trabalhar e pediu a alguém que a levasse para casa. Mas ela n&#227;o queria parar, insistia que queria fazer o que tinha a fazer. A família também percebeu que algo estava a acontecer, ela consultou um psiquiatra, mas é impossível travar este tipo de descompensaç&#227;o. Foi para casa da m&#227;e, mas quando pensaram que estava a melhorar um pouco, relaxaram a vigilância e ela atirou-se pela janela.



Nos testemunhos recolhidos pela polícia, v&#234;-se claramente que ninguém se atreveu a ajudá-la; todos dizem que tinham medo. Tinham medo do patr&#227;o, que era um tirano. Também assediava sexualmente as mulheres e esta mulher era muito bonita. N&#227;o consegui saber se tinha havido assédio sexual, mas várias pessoas evocam no seu depoimento que ela terá caído em desgraça porque se tinha recusado a fazer o que ele queria.



O caso da France Télécom foi muito mediático, com 25 suicídios. O suicídio é mais frequente nas grandes empresas?

N&#227;o. Nas grandes empresas pode ser mais visível, mas há também muitas pequenas empresas onde as coisas correm muito mal, onde os critérios s&#227;o incrivelmente arbitrários e onde o assédio pode ser pior. Nas grandes empresas, subsiste por vezes uma presença sindical que faz com que os casos venham a público. Foi assim na France Télécom. Mas n&#227;o acredito que a destruiç&#227;o actual do mundo do trabalho esteja a acontecer apenas nalgumas grandes multinacionais. E é importante salientar que também há multinacionais onde as coisas correm bem.



Quantas pessoas se suicidam por ano, em França e noutros países?

N&#227;o há estatísticas do suicídio no trabalho. Em França, foi constituída uma comiss&#227;o ministerial onde pela primeira vez foi dito claramente que é urgente aplicar ferramentas que permitam analisar a relaç&#227;o entre suicídio e trabalho. Mas, por enquanto, isso n&#227;o existe. Nem na Bélgica, nem no Canadá, nem nos Estados Unidos, n&#227;o existe em sítio nenhum.



Na Suécia, por exemplo, há provavelmente tantos suicídios no trabalho como em França. Mas n&#227;o há debate. Em muitos países n&#227;o há debate, porque n&#227;o existe esse espaço clínico, essa nova medicina do trabalho que estamos a desenvolver em França. De facto, a França é dos sítios onde mais se fala do assunto. O debate franc&#234;s interessa muita gente, mas também mete muito medo.



Em França, foi feito um único inquérito, há quatro anos, pela Inspeç&#227;o Médica do Trabalho, em tr&#234;s departamentos [divis&#245;es administrativas], passando pelos médicos do trabalho, e chegaram a um total de 50 suicídios em cinco anos. É provavelmente um valor subestimado, mas, extrapolando-o a todos os departamentos, dá entre 300 e 400 suicídios no trabalho por ano.



Falou de “qualidade total”. O que é exactamente?

É uma segunda medida que foi introduzida na sequ&#234;ncia da avaliaç&#227;o individual. Acontece que, quando se faz a avaliaç&#227;o individual do desempenho, está-se a querer avaliar algo, o trabalho, que n&#227;o é possível avaliar de forma quantitativa, objetiva, através de mediç&#245;es. Portanto, o que está a ser medido na avaliaç&#227;o n&#227;o é o trabalho. No melhor dos casos, está-se a medir o resultado do trabalho. Mas isso n&#227;o é a mesma coisa. N&#227;o existe uma relaç&#227;o de proporcionalidade entre o trabalho e o resultado do trabalho.



É como se em vez de olhar para o conteúdo dos artigos de um jornalista, apenas se contasse o número de artigos que esse jornalista escreveu. Há quem escreva artigos todos os dias, mas enfim... é para contar que houve um acidente de viaç&#227;o ou outra coisa qualquer. Uma única entrevista, como esta por exemplo, demora muito mais tempo a escrever e, para fazer as coisas seriamente, vai implicar que o jornalista escreva entretanto menos artigos. Hoje em dia, julga-se os cientistas pelo número de artigos que publicam. Mas isso n&#227;o reflete o trabalho do cientista, que talvez esteja a fazer um trabalho difícil e n&#227;o tenha publicado durante vários anos porque n&#227;o conseguiu obter resultados.



Passados uns tempos, surgem queixas a dizer que a qualidade [da produç&#227;o ou do serviço] está a degradar-se. Ent&#227;o, para além das avaliaç&#245;es, os gestores começam a controlar a qualidade e declaram como objetivo a “qualidade total”. N&#227;o conhecem os ofícios, mas v&#227;o definir pontos de controlo da qualidade. É verdadeiramente alucinante.

Para além de que declarar a qualidade total é catastrófico, justamente porque a qualidade total é um ideal. É importante ter o ideal da qualidade total, ter o ideal do “zero-defeitos”, do “zero-acidentes”, mas apenas como ideal.



Em diabetologia, por exemplo, os gestores introduziram a obrigaç&#227;o de os médicos fazerem, para cada um dos seus doentes, ao longo de tr&#234;s meses, a média dos níveis de hemoglobina glicosilada A1c [ri-se], que é um indicador da concentraç&#227;o de açúcar no sangue. A seguir, comparam entre si os grupos de doentes de cada médico – é assim que controlam a qualidade dos cuidados médicos. [ri-se].



Só que, na realidade, quando tratamos um doente, &#224;s vezes o tratamento n&#227;o funciona e temos de perceber porqu&#234;. E finalmente, o doente acaba por nos confessar que n&#227;o consegue respeitar o regime alimentar que lhe prescrevemos, porque inclui legumes e n&#227;o féculas e que os legumes s&#227;o mais caros... Tem tr&#234;s filhos e n&#227;o tem dinheiro para legumes. E ent&#227;o, vamos ter de encontrar um compromisso.

Da mesma forma, se um doente diabético é engenheiro e tem de viajar frequentemente para outros fusos horários, torna-se muito difícil controlar a sua glicemia com insulina. Mais uma vez, vai ser preciso encontrar um meio-termo. E isso é difícil.



Mesmo uma central nuclear nunca funciona como previsto. Nunca. Por isso é que precisamos de “trabalho vivo”. A qualidade total é um contra-senso porque a realidade se encarrega de fazer com que as coisas n&#227;o funcionem de forma ideal. Mas o gestor n&#227;o quer ouvir falar disso.



Ora, quando o ideal se transforma na condiç&#227;o para obter uma certificaç&#227;o, o que acontece é que se está a obrigar toda a gente a dissimular o que realmente se passa no trabalho. Deixa de ser possível falar do que n&#227;o funciona, das dificuldades encontradas. Quando há um incidente numa central nuclear, o melhor é n&#227;o dizer nada.

Isso é extremamente grave.

É. E em medicina passa-se a mesma coisa. Faz-se batota. Hoje, existem nos hospitais as chamadas “confer&#234;ncias de consenso” – acho que existem em toda a Europa – onde s&#227;o feitas recomendaç&#245;es precisas para o tratamento de tal ou tal doença. E quando um médico recebe um doente, tem de teclar no computador para ver o que foi estabelecido pela confer&#234;ncia de consenso. O médico, que tem o doente &#224; sua frente, pensa que essa n&#227;o é a boa abordagem – porque sabe que o doente tem problemas com a mulher, com os filhos e n&#227;o vai conseguir fazer o tratamento recomendado. Mas sabe também que se n&#227;o fizer o que está lá escrito, e se por acaso as coisas derem para o torto, poderá haver um inquérito, a pedido da família ou de um gestor, e v&#227;o dizer que foi o médico que n&#227;o fez o que devia. O problema da qualidade total é que obriga muitos de nós a viver essa experi&#234;ncia atroz que consiste em fazer o nosso trabalho de uma forma que nos envergonha.

Há muitos suicídios entre os médicos?

Cada vez mais. Há especialidades com mais suicídios do que outras – nomeadamente entre os médicos reanimadores. Em França é uma verdadeira hecatombe: é sabido que a profiss&#227;o de anestesista-reanimador é das que t&#234;m maior taxa de suicídios. Nesta especialidade, os riscos de ser-se atacado em tribunal porque alguém morreu s&#227;o t&#227;o elevados que os médicos se protegem seguindo as instruç&#245;es. Mesmo que tenham a íntima convicç&#227;o de que n&#227;o era isso que deveriam fazer. Chegámos a esse ponto.



É uma situaç&#227;o insuportável e há médicos que n&#227;o aguentam ver um doente morrer porque tiveram medo de que isso se virasse contra eles. “Fiz o que estava escrito e o doente morreu. Matei o doente.” Há cada vez mais reanimadores que se confrontam com esta situaç&#227;o. Ainda por cima os cirurgi&#245;es atiram sempre as dificuldades que encontram nas operaç&#245;es para cima do reanimador. Sempre. Cada vez que acontece qualquer coisa, é porque o anestesista n&#227;o adormeceu bem o doente, ou n&#227;o o acordou corretamente, ou n&#227;o soube restabelecer a press&#227;o arterial. O cirurgi&#227;o nunca admitirá que falhou nas suturas e que por isso o doente se esvaiu em sangue.



Os médicos sempre foram considerados uma classe muito solidária…
Foram. Já n&#227;o s&#227;o. Eu trabalhei anos nos hospitais, e adorava trabalhar lá, porque existia um espírito de equipa fantástico. Éramos felizes no nosso trabalho. Hoje, as pessoas n&#227;o querem trabalhar nos hospitais, n&#227;o querem fazer bancos, tentam safar-se. S&#227;o todos contra todos. Bastaram uns anos para destruir a solidariedade no hospital. O que aconteceu é aterrador.



O que é importante perceber é que a destruiç&#227;o dos elos sociais no trabalho pelos gestores nos fragiliza a todos perante a doença mental. E é por isso que as pessoas se suicidam. N&#227;o quer dizer que o sofrimento seja maior do que no passado; s&#227;o as nossas defesas que deixaram de funcionar.



Portanto, as ferramentas de gest&#227;o s&#227;o na realidade ferramentas de repress&#227;o, de dominaç&#227;o pelo medo.

Sim, o termo exato é dominaç&#227;o; s&#227;o técnicas de dominaç&#227;o.

Ent&#227;o, é preciso acabar com essas práticas?

Eu n&#227;o diria que é preciso acabar com tudo. Acho que n&#227;o devemos renunciar &#224; avaliaç&#227;o, incluindo a individual. Mas é preciso renunciar a certas técnicas. Em particular, tudo o que é quantitativo e objetivo é falso e é preciso acabar com isso. Mas há avaliaç&#245;es que n&#227;o s&#227;o quantitativas e objetivas – a avaliaç&#227;o dos pares, da coletividade, a avaliaç&#227;o da beleza, da elegância de um trabalho, do fato de ser conforme &#224;s regras profissionais. Trata-se de avaliaç&#245;es assentes na qualidade e no desempenho do ofício. Mesmo a entrevista de avaliaç&#227;o pode ser interessante e as pessoas n&#227;o s&#227;o contra.

Mas sobretudo, a avaliaç&#227;o n&#227;o deve ser apenas individual. É extremamente importante começar a concentrar os esforços na avaliaç&#227;o do trabalho coletivo e nomeadamente da cooperaç&#227;o, do contributo de cada um. Mas como n&#227;o sabemos analisar a cooperaç&#227;o, analisa-se somente o desempenho individual.



O resultado é desastroso. N&#227;o é verdade que a qualidade da produç&#227;o melhorou. A General Motors foi obrigada a alertar o mundo da má qualidade dos seus pneus; a Toyota teve de trocar um milh&#227;o de veículos por veículos novos ou reembolsar os clientes porque descobriu um defeito de fabrico. É essa a qualidade total japonesa?

Hoje, nos hospitais em França, a qualidade do trabalho n&#227;o aumentou – diminui. O desempenho supostamente melhorou, mas isso n&#227;o é verdade, porque n&#227;o se toma em conta o que está a acontecer do lado do trabalho coletivo.



Temos de aprender a pensar o trabalho coletivo, de desenvolver métodos para o analisar, avaliar – para o cultivar. A riqueza do trabalho está aí, no trabalho coletivo como cooperaç&#227;o, como maneira de viver juntos. Se conseguirmos salvar isso no trabalho, ficamos com o melhor, aprendemos a respeitar os outros, a evitar a viol&#234;ncia, aprendemos a falar, a defender o nosso ponto de vista e a ouvir o dos outros.



N&#227;o haverá por detrás desta nova organizaç&#227;o do trabalho objectivos de controlo das pessoas, de reduç&#227;o da liberdade individual, que extravasam o âmbito empresarial?

É uma quest&#227;o difícil. Acho que qualquer método de organizaç&#227;o do trabalho é ao mesmo tempo um método de dominaç&#227;o. N&#227;o é possível dissociar as duas coisas. Há 40 anos que os sociólogos trabalham nisto. Todos os métodos de organizaç&#227;o do trabalho visam uma divis&#227;o das tarefas, por raz&#245;es técnicas, de racionalidade, de gest&#227;o. Mas n&#227;o há nenhuma divis&#227;o técnica do trabalho que n&#227;o venha acompanhada de um sistema de controlo, em virtude do qual as pessoas v&#227;o cumprir as ordens.



Há tecnologias da dominaç&#227;o. O sistema de Taylor, ou taylorismo, é essencialmente um método de dominaç&#227;o e n&#227;o um método de trabalho. O método de Ford é um método de trabalho.



Contudo, n&#227;o penso que a intenç&#227;o do patronato (franc&#234;s, em particular), nem dos homens de Estado seja instaurar o totalitarismo. Mas é indubitável que introduzem métodos de dominaç&#227;o, através da organizaç&#227;o do trabalho que, de fato, destroem o mundo social.



Qual é a diferença entre taylorismo e fordismo?

Taylor inventou a divis&#227;o das tarefas entre as pessoas e a interposiç&#227;o, entre cada tarefa, de uma intervenç&#227;o da direç&#227;o, através de um capataz. Há constantemente alguém a vigiar e a exigir obedi&#234;ncia ao trabalhador. A palavra-chave é obedi&#234;ncia. “Quando eu disser para parar de trabalhar e ir comer qualquer coisa, voc&#234; vai obedecer. Se concordar, será pago mais 50 c&#234;ntimos pela sua obedi&#234;ncia.” A única coisa que importa é a obedi&#234;ncia. O objetivo é acabar com o ócio, os tempos mortos.



Só muito mais tarde é que Ford introduziu uma nova técnica, a linha de montagem, que é uma aplicaç&#227;o do taylorismo. Na realidade, n&#227;o é o progresso tecnológico que determina a transformaç&#227;o das relaç&#245;es sociais, mas a transformaç&#227;o das relaç&#245;es de dominaç&#227;o que abre o caminho a novas tecnologias.



O toyotismo [ou Sistema Toyota de Produç&#227;o] utiliza um outro método de dominaç&#227;o, o ohnismo [inventado por Taiichi Ohno (1912-1990)], diferente do taylorismo. É um método particular que extrai a intelig&#234;ncia das pessoas de uma forma muito mais subtil que o taylorismo, que apenas estipula que há pessoas que t&#234;m de obedecer e outras que mandam.



No ohnismo, trata-se de fazer com que pessoas beneficiem a empresa oferecendo a sua intelig&#234;ncia e os conhecimentos adquiridos através da experi&#234;ncia. Para o fazer, nos anos 1980, introduziu-se algo de totalmente novo: os chamados “círculos de qualidade”.

O sistema japon&#234;s foi realmente uma novidade em relaç&#227;o ao taylorismo, porque ensinou as pessoas a colaborar sem as obrigar a obedecer – dando-lhes pr&#234;mios, pelo contrário. Quando uma sugest&#227;o de uma pessoa dá lucro, a empresa faz o cálculo do dinheiro que a empresa ganhou com a ideia e reverte para o trabalhador uma parte desse lucro. Trata-se de pr&#234;mios substanciais.

Mas há uma batota: os círculos de qualidade podiam durar horas, todos os dias, reunindo as pessoas a seguir ao trabalho para alimentar a caixinha das ideias. Todos se envolviam porque, por um lado, uma ideia que permitisse melhorar a produç&#227;o valia-lhes chorudos pr&#234;mios, mas também porque quem participava neles tinha um emprego vitalício garantido na empresa.



O sistema foi exportado para a Europa, os EUA, etc. porque durante uns tempos, a qualidade melhorou de fato. Mas a dada altura, as pessoas no Jap&#227;o trabalhavam tanto que começou a haver mortes por kar&#333;shi [literalmente “morte por excesso de trabalho”].

O que é o kar&#333;shi?

É uma morte súbita, geralmente por hemorragia cerebral (AVC), de pessoas novas que n&#227;o apresentam qualquer fator de risco cardiovascular. N&#227;o s&#227;o obesos, n&#227;o sofrem de hipertens&#227;o, n&#227;o t&#234;m níveis de colesterol elevados, n&#227;o s&#227;o diabéticos, n&#227;o fumam, n&#227;o s&#227;o alcoólicos, n&#227;o tem uma história familiar de AVC. Nada. A único fator que é possível detectar é o excesso de trabalho. Estas pessoas trabalham mais de 70 horas por semana, sem contar as horas passadas nos círculos de qualidade. Ou seja, s&#227;o pessoas que est&#227;o literalmente sempre a trabalhar. Mal param de trabalhar, v&#227;o dormir. As descriç&#245;es de colegas que foram fazer inquéritos no Jap&#227;o s&#227;o aterrorizadoras.



O mundo do trabalho no Jap&#227;o é alucinante. Há raparigas que entram nas fábricas de electrónica, por exemplo, e que s&#227;o utilizadas entre os 18 e os 21 anos – porque aos 21 anos, já n&#227;o conseguem aguentar as cad&#234;ncias de trabalho.



As famílias confiam-nas &#224;s empresas por esses tr&#234;s anos, durante os quais elas se entregam de corpo e alma ao trabalho. E nalguns casos, a empresa compromete-se a casar a rapariga no fim dos tr&#234;s anos. É mesmo um sistema totalitário. E mais: essas jovens trabalham 12 a 14 horas por dia e depois v&#227;o para uns dormitórios onde há uma série de gavet&#245;es – cada um com cama e um colch&#227;o –, deitam-se na cama e fecha-se o gavet&#227;o. Dormem assim, empilhadas em gavet&#245;es. Tr&#234;s anos… em gavet&#245;es… é preciso ver para crer.



Mas uma coisa destas n&#227;o é aplicável na Europa

N&#227;o, pelo menos em França nunca funcionaria. Ainda n&#227;o chegámos lá, disso tenho a certeza.



Mas acha que poderia acontecer?

Sim, acho que poderíamos lá chegar. Tudo é possível. Mas ao contrário do que se diz, n&#227;o há uma fatalidade, n&#227;o é a mundializaç&#227;o que determina as coisas, n&#227;o é a guerra económica. É perfeitamente possível, no contexto atual, trabalhar de outra maneira, e há empresas que o fazem, com uma verdadeira preocupaç&#227;o de preservar o “viver juntos”, para tentar encontrar alternativas &#224; abordagem puramente de gest&#227;o. O que n&#227;o impede que a tend&#234;ncia seja para a desestruturaç&#227;o um pouco por todo o lado. É difícil resistir-lhe.



Uma empresa que defendesse os princípios da liberdade, da igualdade e da fraternidade conseguiria sobreviver no actual contexto de mercado?

Hoje, estou em condiç&#245;es de responder pela afirmativa, porque tenho trabalhado com algumas empresas assim. Ao contrário do que se pensa, certas empresas e alguns patr&#245;es n&#227;o participam do cinismo geral e pensam que a empresa n&#227;o é só uma máquina de produzir e de ganhar dinheiro, mas também que há qualquer coisa de nobre na produç&#227;o, que n&#227;o pode ser posta de lado. Um exemplo fácil de perceber s&#227;o os serviços públicos, cuja ética é permitir que os pobres sejam t&#227;o bem servidos como os ricos – que tenham aquecimento, telefone, eletricidade. É possível, portanto, trabalhar no sentido da igualdade.



Há também muita gente que acha que produz coisas boas – os avi&#245;es, por exemplo, s&#227;o coisas belas, s&#227;o um sucesso tecnológico, podem progredir no sentido da proteç&#227;o do ambiente. O lucro n&#227;o é a única preocupaç&#227;o destas pessoas.



E, entre os empresários, há pessoas assim – n&#227;o muitas, mas há. Pessoas muito instruídas que respeitam esse aspecto nobre. E, na sequ&#234;ncia das histórias de suicídios, alguns desses empresários vieram ter comigo porque queriam repensar a avaliaç&#227;o do desempenho. Comecei a trabalhar com eles e está a dar resultados positivos.

O que fizeram?

Abandonaram a avaliaç&#227;o individual – aliás, esses patr&#245;es estavam totalmente fartos dela. Durante um encontro que tive com o presidente de uma das empresas, ele confessou-me, após um longo momento de reflex&#227;o, que o que mais odiava no seu trabalho era ter de fazer a avaliaç&#227;o dos seus subordinados e que essa era a altura mais infernal do ano. Surpreendente, n&#227;o? E a raz&#227;o que me deu foi que a avaliaç&#227;o individual n&#227;o ajuda a resolver os problemas da empresa. Pelo contrário, agrava as coisas.



Neste caso, trata-se de uma pequena empresa privada que se preocupa com a qualidade da sua produç&#227;o e n&#227;o apenas por raz&#245;es monetárias, mas por quest&#245;es de bem-estar e convivialidade do consumidor final. O resultado é que pensar em termos de convivialidade faz melhorar a qualidade da produç&#227;o e fará com que a empresa seja escolhida pelos clientes face a outras do mesmo ramo.

Para o conseguir, foi preciso que existisse cooperaç&#227;o dentro da empresa, sinergias entre as pessoas e que os pontos de vista contraditórios pudessem ser discutidos. E isso só é possível num ambiente de confiança mútua, de lealdade, onde ninguém tem medo de arriscar falar alto.



Se conseguirmos mostrar cientificamente, numa ou duas empresas com grande visibilidade, que este tipo de organizaç&#227;o do trabalho funciona, teremos dado um grande passo em frente.



Comentários de Adir de Souza[



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